Esteve perplexa em frente ao papel durante algum tempo.De repente as linhas,a caneta e a inspiração pareciam um branco total.Havia tanto o que dizer ,tanto a desvendar dentro de um coração a explodir pela intensidade do que estava lá dentro.E então o silêncio desvendou o inexprimível e escreveu tudo tão naturalmente que sentia sua mão conduzida por alguém que não lhe pertencesse.Parou por um momento e então pôde reconhecer que o tal sentimento que habitava o pobre peito era um mocinho muito conhecido por aquelas bandas.Amar era comum e o pobre coração não hesitava em bancar o mendigo que implora até pelas mais minúsculas migalhas de atenção.Pedia um resquício de amor só por hoje,por esta tarde por um sonho apenas....Se saía muito bem o danadinho como pedinte,37 anos e contando.Era tão grande sua habilidade que causaria inveja a qualquer pedinte.“E ai senhor, fez quanto hoje?” “Somente alguns centavos, e você coração?” “Eu fiz alguns abraços, um pouco de beijo " “Mas é pra vida inteira coração?” “Não, né não. Mas só por hoje basta senhor” “Certeza coração?” Certeza, certeza, ele não tinha não. Mas o que poderia fazer? Dormir sozinho? Virar-se na solidão? Não, não.Ser só ,não parecia o correto para o pobre coração.Virar-se na solidão? Parecia tão sujo e errado quanto aqueles velhos maltrapilhos que mendigavam há anos. Então coração continuava pedindo. Era o único jeito que sabia viver. Por isso, agora, tinha certeza de que estava equivocado. Equivocado em acreditar que naquele dia quente de dezembro uma alma caridosa havia jogado em sua direção não migalhas que durariam até o amanhecer se tivesse muita sorte, mas um amor pra vida inteira. Um amor que desconcertava, que bagunçava, porque era tão novo e tão certo, que não podia ser real. Equivocado porque não foi preciso pedir. Desta vez coração não teve que fazer números de pirofagia, contar anedotas ou histórias tristes da sua vida de andarilho. Não, não, não. O moço que jogou o amor pra vida inteira ali nos pés do coração, o fez simplesmente porque coração estava ali, no dia certo, na esquina certa, em uma noite quente de dezembro.
A lembrança fazia coração rir. “Mas tu é muito sortudo meu!”. Mas lá no fundo ele tinha medo. Porque o novo dava medo. E coração que estava acostumado a uma vida pedindo, implorando, sempre de joelhos rezando para que aquela sensação durasse até a manhã seguinte, tinha que aprender a ser amado.
“Mas como alguém pode amar um coração maltrapilho como eu? Assim fico até sem jeito”. E por isso só lhe restava agradecer “Obrigada por me amar como exatamente como eu sou”. Ainda que a ideia o desconcertasse, ele estava certo de que nada poderia fazer além de render-se e se deixar ser amado pela primeira vez. Não por uma noite. Mas por uma vida inteira talvez.
“Obrigada moço. Eu também te amo. Mas te amo assim ô, do jeitinho que tu é”.
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