Fuçando no báu das lembranças... boas ,ruins...Bem .....boa leitura!
Na
vida, nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora
imobiliza. Quem tem âncoras vive apenas a nostalgia e não a saudade.
Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra.
Uma pessoa tem saudade quando tem raízes, pois o passado a alimenta
(mais de 40 anos atrás, eu saí de Londrina, minha cidade natal, mas
minha saudosa Londrina não saiu de mim).
Pessoas que têm nostalgia estão quase sempre às voltas como um processo de lamentação.
Como
curiosidade, lembro que a palavra nostalgia foi criada por um médico
alemão do século 19. Naquela época, quem tinha um ferimento feio tinha
de amputar o membro ferido. E então, como hoje, muita gente que perdeu
uma parte do corpo relata continuar sentindo desconforto, coceira ou dor
no membro que não existe mais. E então, o médico alemão pegou duas palavras gregas antigas e as uniu: nostos,
que significa volta, e algo, que quer dizer dor. Assim, nostalgia ficou
sendo a dor da volta, a dor daquilo que já se foi e continua doendo.
Todos
nós temos raízes e também âncoras. O problema é quando as âncoras
superam as raízes. O nostálgico amarga e sofre, o saudoso se alegra,
pois ele deixa fruir aquilo que viveu. O nostálgico se aproxima daquilo
que os antigos chamavam de melancolia e que hoje é chamado de depressão,
esse perigo.
Vez
ou outra é preciso fazer um “balanço” de mim mesmo, de modo a ver se
estou sendo puxado para as raízes ou para as âncoras, para a saudade ou a
nostalgia, para a alegria ou para a depressão.
Em
qualquer ano que uma pessoa tenha atravessado é impossível viver sem
cicatrizes. Por isso, uma das coisas que mais me chateiam é quando
encontro alguém depois de um ano e essa pessoa me diz: “Cortella, você
não mudou nada!”. Como não mudei?! Só o fato de eu ter partilhado,
compartilhado, vivenciado, convivido com pessoas, experimentado coisas,
tudo isso faz com que eu mude.
Muita coisa que eu pensava no começo do ano não pensa mais e vice-versa, pois sou capaz de mudanças, graças aos céus.
O autor:
Mario Sergio Cortella
é um filósofo brasileiro, mestre e doutor em Educação pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, onde também é professor-titular do
Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da pós-graduação em
Educação (Currículo), além de professor-convidado da Fundação Dom Cabral
e do GVpec da FGV-SP.
Obs: Publicado na revista N Respostas

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